Ao longo desta semana, em alusão ao Dia Internacional da Mulher, confira histórias de mulheres inspiradoras. Hoje, Mara Meiry Tavares homenageia sua avó Benvinda.

“Este mês comemoramos no dia 08, o Dia Internacional da Mulhere. Durante todo o mês podemos acompanhar várias homenagens e histórias com mulheres que nos antecederam na história e abriram o caminho para que pudéssemos ainda hoje seguir nossa árdua luta diária. 

Todas as mulheres têm uma história de luta e superação para contar, mas nem todas são contadas, mas nem por isso são menos guerreiras e importantes. 

Hoje passo por aqui para contar uma das histórias de uma guerreira que conheci e mais ainda, que fez parte da minha vida. Minha avó de nome Benvinda!!

Nascida na roça no interior de Minas Gerais numa família de oito irmãos, aos 6 de agosto de 1913. Como todas as meninas daquela época, teve uma vida de muitas dificuldades no campo onde as filhas, além de toda a lida doméstica com os afazeres da casa e de cuidar dos irmãos mais novos, ainda tinham que ajudar na lavoura.

Casou-se aos 13 anos, com um filho de um amigo da família dos pais. Os casamentos daquele tempo eram ‘combinados’, por isso ela só o tinha visto de longe e muito poucas vezes, mas aquele que seria seu companheiro por quase 80 anos.

Tiveram oito filhos. Uma menina morreu ainda criança, um menino ainda jovem e meu pai com 36 anos!

Vida que segue, essa brava e guerreira senhora com menos de 1,50m de altura (vovô tinha 1,90m) superou  todos os obstáculos. Sempre com um sorriso no rosto, mas era manhosa também. Uma cozinheira de mão cheia. Qualquer um que chegasse na casa da fazenda que eu conheci, era sempre recebido com doces e quitandas deliciosas acompanhados de um bom café.   

Mas a maior lição que ela me deixou foi a sabedoria de se libertar do julgo financeiro do Sr. Anísio, meu avô, mesmo nunca tendo feito isso. 

No início do casamento, (como ainda nos tempos de hoje existe esse costume), toda a renda era administrada pelo provedor, vovô! Até porque ela era analfabeta.  Quando ela, como ainda o faz muitas mulheres, precisava de algum dinheiro para qualquer gasto pessoal, tinha que recorrer ao marido e sempre era questionada sobre a necessidade daquela despesa. Foi então que, com os recursos que tinha vivendo na roça, teve a ideia: primeiro, começou a vender ovos, depois frangos e galinhas. Com essa renda, começou a comprar porcos e bezerros. E, experta que era, toda cria dos seus animais, era dela!!! Ela negociava e guardava muito bem guardado fora do alcance de vovô. Logo tinha dinheiro até para emprestar a juros.

Era muito vaidosa e talvez tenha sido esta a motivação para tal rebeldia. Com sua renda própria sempre andou muito bem vestida apesar de morar na roça. Quando ia à cidade, corria às compras. Tinha estoque de vestidos novos para quando precisasse. Não existia feminismo, igualdade de direitos. Não tinha acesso nenhum a informação. Apenas a vontade de querer ser livre. 

Esta era Dona Benvinda! Partiu em 2006 aos 93 anos de idade. 

Esta é a lição que minha linda e pequena avó me deixou: há sempre um caminho! E todas as mulheres precisam encontrá-lo.”


Mara Meiry Tavares, presidente da ONG SobreViver e dirigente do SINA.